Como pode o feminino inspirar um melhor futuro colectivo?

texto de Njiza Rodrigo da Costa.

O passado dia 8 de Março foi dia de participar numa das milhares de iniciativas que por todo o mundo assinalaram o Dia internacional da Mulher.

Estive nas Women Talks, realizadas na Reitoria da Universidade de Lisboa.

O programa era vasto, mas dois temas apropriaram-se de imediato da minha atenção.

‘Feminismos e Intergeracionalidades’ e ‘Mulheres e Liderança’, foram os nomes dos dois workshops em que participei.

O primeiro workshop foi sobre ‘Feminismos e Intergeracionalidades’.

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O que ficou impresso em mim e quais as questões que surgiram?

Quando entro no workshop, que já tinha iniciado, sou acolhida por uma voz, que diz, para os participantes na sala, algo que eu retive como: ‘As mulheres trazem consigo o mito’ .

Enquanto atravesso a sala, à procura de um lugar, vou ouvindo palavras soltas e frases que prendem a minha atenção. Encontro um lugar entre duas participantes que abrem o espaço entre si, acolhendo-me no grupo. Sento-me e, no momento em que me centro, oiço a mesma voz terminando com a sugestão ‘o homem tem a propensão para gestão e a mulher para a gestação’.

Acolhi esta ideia de categorização não como uma incapacidade para realizar a função oposta, mas antes como uma propensão natural do género.

A conversa depois fluiu, como quis, para outros assuntos urgentes na esfera da protecção da mulher e da conquista de direitos iguais.
Enquanto escutava atentamente notava como prevalecia na nossa linguagem palavras como ‘luta’ e ‘debate’ e pensava ‘esta não é a nossa linguagem’.

A beleza das conversas é que, se soubermos esperar, elas levam-nos por caminhos que convergem com o nosso interior.

De repente alguém convida o ‘olhar para dentro’ para as relações dentro dos movimentos e entre movimentos, para a relação entre gerações e seus diferentes impulsos e modos de participar activamente na conquista.

Este foi o espaço onde as minhas inquietações foram acolhidas.

Ofereci ao grupo as minhas perguntas sobre a linguagem e como sinto a presença de estruturas patriarcais no modo como dialogamos,  na forma como colectamos conhecimento, como planeamos, como agimos e como averiguamos impacto da acção.

Muitas vezes sinto a presença forte de uma rigidez no pensar e diálogo entre mulheres, que considero não pertencer à natureza fluída do feminino.

O feminismo para mim tem muito a ver com ‘As mulheres trazerem consigo o [Espaço para o] Mito’ – o intangível da vida, a emoção, os elos invisíveis que ligam todos os elementos que integram este grande mistério que é a Vida – escrevo Espaço, porque sugerir que as qualidades femininas vivem, potencialmente, tanto dentro da mulher como dentro do homem.

Possuída desta visão, mesmo celebrando e sendo grata a tudo aquilo que estes movimentos atingiram, não consigo ver o feminismo apertado dentro de um conceito de movimento político, filosófico e social, que a meu ver não inclui esta dimensão mais etérea do ser.

O dia 8 de março, hoje conhecido como Dia Internacional da Mulher, remete-nos ao ano de 1857 – quando centenas de operárias da indústria têxtil de Nova Iorque foram duramente reprimidas por realizarem uma greve por melhores condições de trabalho. São 160 anos que transportam o peso suficiente para recordar o quão longa e dolorosa tem sido esta jornada para a igualdade. Acresce a este peso de anos uma jornada milenar que transporta consigo um vasto conhecimento e práticas no feminino, que, há muito tempo, não vejo estarem a ser aplicadas na construção do mundo comum.

Neste espaço deixei algumas questões que partilho aqui:

Quais as assumpções iniciais a partir das quais estamos a procurar construir um sistema que honre o Ser Feminino? Estão a ter considerados todos os aspectos da essência do Ser Mulher?

Até que ponto são considerados aspectos menos tangíveis da presença e impacto da acção do Ser Mulher ?

Até que ponto existe desconforto com a emoção e conexão humana ao falar de estratégias para a humanidade?

Até que ponto as mulheres se empossam dos seus singulares modos e formas de pensar e sentir o mundo? Até que ponto ousam expressar estes modos?

Estas perguntas nascem também da minha jornada pessoal. Recordo o quão desafiante foi, e muitas vezes ainda é difícil, para a minha identidade forjada num sistema patriarcal, encontrar coragem para trazer essas qualidades mais etéreas – tantas vezes depreciadas e marginalizadas.

Estas perguntas são um convite a pensar o mundo com o coração.

Um convite a elevar consciência para patamares que integram a totalidade das dimensões humanas. Um passo que urge realizar é o de reunirmos razão, emoção e intuição em modelos que integram e honram a diversidade da vida.

Até que ponto o feminismo, enquanto qualidade de presença, pode trazer-nos uma liderança mais humana e holística? Até que ponto anda o Movimento Feminista a lutar por direitos iguais a partir de um sistema patriarcal que nega o invisível na vida? Até que ponto o nosso ponto inicial de acção está preso a um sistema que não acredita que humanidade e riqueza são compatíveis, que escolhe homogeneizar e controlar, negando espaço à diversidade do ser e saber humano?

“Continuarão as mulheres prisioneiras das palavras e conceitos que lhes foram dados?”

– Maria de Lurdes Pintalsilgo, 1981; Caderno de Trabalho – Proposta de literacia para a igualdade de género e a qualidade de vida, Fundação Cuidar O Futuro

Pensar e agir com o coração não é sinónimo de fraqueza ou falta de determinação.
Longe disso! É complexo e requer muita coragem e energia de acção no esforço de transmutar as resistências naturais, de um sistema que não quer olhar para aquilo que não está a funcionar, que busca a perpetuação do estado actual  e que insiste em adiar a transformação necessária.


O segundo workshop: ‘Mulheres e Lideranças’, promovido pela Associação Espaços- Projectos Alternativos de Mulheres e Homens

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O convite deste workshop foi diferente, era já para mim uma ponte com aquilo que considero estar em falta no mundo e está intimamente ligado com as questões do workshop anterior.

Aqui encontrei um espaço para convidarmos a presença do que nos precede, integrar a ancestralidade na história colectiva da humanidade.

A facilitadora do workshop acolhe quem entra na sala com o convite para tentarmos formar um Círculo.

Um desafio – encontrando-nos nós numa sala ‘anti-Círculo’!

Estávamos na sala de Doutoramentos. Uma sala ‘piramidal’, ‘hierárquica’, ‘com pouca fluidez’ e ‘autoritária’, de acordo com as observações de cada uma das presentes. De imediato, o espaço torna-se em tema de conversa antes do inicio da sessão, enquanto aguardávamos por mais participantes.

Fomos unânimes a concluir que até na organização do espaço se reflecte a força de um sistema que insiste na superioridade de uns face a outros.

O workshop começa com a apresentação do projecto ‘Literacia para a Igualdade de Género e Qualidade de Vida: Lideranças Partilhadas’, da Fundação Cuidar do Futuro.

Ao sentimento de celebrar o convite à formação de círculo, que não conseguimos criar, junta-se agora este tema: lideranças partilhadas.

Confirma-se! Estou em casa – sou facilitadora de liderança autêntica e participativa.

Às vezes pode ser perigoso sabermos que estamos em casa – assim procurei logo observar o meu interior e perceber como proteger-me da propensão para a atitude inicial de ‘eu sei’ – atitude cultivada no sistema educacional onde fui forjada. Um ponto inicial que nos fecha dentro de nós mesmos, no nosso conhecimento acumulado.

‘Escuta de coração e mente aberta’ – diz uma voz amiga, que não julga estes impulsos humanos de ficarmos agarrados aquilo que sabemos.

Com a presença desta voz foi fácil sintonizar-me com a natureza amorosa que emanava da facilitadora, enquanto falava do projecto e cuidava sempre de nos envolver em diálogo.  Falou do que correu bem e das dificuldades e resistências que surgem quando se procura trazer para o sistema vigente as conversas em círculo e processos criativos dialógicos.

De modo participativo foi assegurada a oportunidade de todas as presentes poderem expressar o seu pensar e sentir sobre dois textos que a facilitadora entregou para leitura.


Excerto do texto-desafio 1: Modelos alternativos de liderança?

Em 1986, numa conferencia em Amsterdão, Maria de Lurdes Pintasilgo defende que a brecha que se abre às mulheres no poder é para “realizar uma tarefa crucial: transformar cada lugar de decisão num Locus Vitae”

O texto aludia ao temas da sede de poder do sistema actual, ao medo e receio de partilhar poder, aos hábitos de pensamento e formas de organização da sociedade restringidas ao modelo da pirâmide e apresentava um convite para conectar lideranças com a sua profunda humanidade.

Foi uma conversa riquíssima onde senti espaço para expressar a minha necessidade pessoal de unir ancestralidade e modernidade.

Um das constatações que surgiu foi o facto de só conhecermos o triângulo enquanto forma de organização. Tudo é piramidal nesta sociedade.

Concordo absolutamente e considero que parte disso advém da nossa desconexão com o ciclo natural da vida e com o saber antigo. (sobre esta desconexão deixo o convite a ver este vídeo com Vandana Shiva, física, eco-feminista e activista ambiental)

Esta constatação de restrição ao sistema piramidal e a sensação de presença de um impulso de busca de uma solução, levou-me a partilhar algo que considero crucial recordar: a nossa primeira forma de organização social foi o Círculo.

E este olhar para o que nos precedeu leva-me também a uma preocupação pessoal – a actual disseminação de práticas colaborativas, métodos de decisão e acção participativos tende, por vezes, a querer contornar a raiz ancestral destas abordagens. Refiro-me ao facto destas metodologias, como as que resgatam o Círculo, terem alma e trazerem acopladas com elas conhecimento antigo, que não podemos dispensar, por medo de ser menos racional. O acesso ao poder transformador destas metodologias, a capacidade de aceder ao fenómeno da inteligência colectiva depende do acto de honrar determinados rituais.

O circulo foi e é a forma primordial de organização – a processo natural de evolução é composto de círculos e espirais!

O circulo é uma forma intuitiva de proximidade e igualdade. Ninguém diz ‘estive num quadrado de amigo’ ou ‘estive num triângulo de amigos’ falamos sempre em  ‘círculos de amigos’.

O Círculo desde há milhares de anos que constitui muito mais que uma simples forma geométrica, é uma prática humana natural, que inclui e respeita a diversidade de cada elemento presente no sistema. No círculo não à hierarquia, há singularidade e valor em cada um dos pontos das circunferência.

A realização de conversas em Círculo, encontros de pessoas para partilha de histórias reais à volta do fogo e o evocar de uma qualidade de presença ‘somos um’ são princípios e práticas que desde há milhares de anos orientam-nos no sentido da harmonia. E talvez estejamos aqui hoje porque, mesmo marginalizadas, estas práticas conseguiram sempre metamorfosear-se e assegurar a sua crucial existência.

A prática de Círculo é uma das muitas riquezas que consta do vasto património  que os culturas milenares nos deixaram. E existem aspectos mais artísticos, menos tangíveis, nestas práticas que também deveremos resgatar.

Em Círculo cada um tem uma posição espacial que é igual a cada outro no Círculo. O Círculo honra todas as vozes e convida a sabedoria coletiva a estar no centro.
Para ser seguro, tudo que for dito deve ser tratado com respeito. Revelar-se exige coragem e confiança, e isso deve ser honrado.

Princípios da Prática de Círculo

  • Liderança rotativa;
  • Responsabilidade compartilhada (assuma-a);
  • Ter um propósito maior que une os participantes.

Práticas de Círculo

  • Falar com Intenção, notando o que tem relevância para a conversa no momento. Falar em primeira pessoa é um grande aliado;
  • Ouvir com Atenção e com o coração, com respeito ao processo de aprendizagem de todos os membros do grupo;
  • Contribuir para o bem-estar do grupo, permanecendo atento ao impacto das nossas contribuições.

Quatro Acordos no Círculo

  1. Ouvir sem julgamentos (diminuir o ritmo, a ansiedade e ouvir);
  2. O que for dito no Círculo permanece no círculo;
  3. Oferecer o que pode dar e pedir o que precisa;
  4. O silêncio faz parte da conversa e gera aprendizagens.

(Manual Art of Hosting Portugal)

Felizmente cada vez mais comunidades ligadas à liderança autêntica e participativa estão a revitalizar um conjunto rico de práticas e a trazer consigo artefactos que auxiliam esta tarefa de trazer mais humanidade para os processos de diálogo, pensamento, decisão e acção em grupos e organizações – e os princípios de presença e diálogo em Círculo são elementos-chave.

O muro que, sinto, separa-nos de melhores possibilidades futuras é parecer existir uma vergonha colectiva em não sermos só racionais. O muro que vejo pela frente é a dificuldade em unirmos mente, coração e espírito na nossa visão do mundo.

“Tudo que o Poder do Mundo faz é feito em Círculo.
O céu é redondo, e tenho escutado que a Terra é redonda como uma bola, assim como todas as estrelas.
O vento, com seu poder grandioso, rodopia.
Pássaros fazem os seus ninhos em Círculos, pois têm a mesma religião que a nossa.
O sol nasce e põe-se em Círculo.
A lua faz o mesmo e ambos são redondos.
Mesmo as estações do ano formam um grande Círculo nas suas mudanças, e sempre voltam novamente onde estavam.
A vida (de uma pessoa) é um Círculo de infância à infância, e é assim em tudo onde o Poder se move.”

– Black Elk no livro “Calling the Circle”, de Christina Baldwin

Talvez o outro lado da liderança esteja algures perto das ‘mulheres trazerem consigo o mito’ e a ancestralidade e talvez a sua manifestação esteja pendente do feminismo expandir-se para além do conceito nascido numa incubadora patriarcal.

Honrar ancestralidade, adoptar multidimensionalidade e multidisciplinariedade é para mim um passo natural no processo de reclamar a natureza gestacional, fluida e integrativa do Ser Feminino. Um passo que vai ao encontro do conceito de múltiplas inteligências – cognitiva, interpessoal, moral, emocional e estética (Howard Gardner, 1980, Harvard University) e que permitirá a cada Ser integrar as vozes masculinas e femininas que vivem dentro de cada um.

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

Fernando Teixeira de Andrade


Excerto do texto-desafio 2: Lideranças Partilhadas

A nova forma de lidar com a liderança dever ser aprendida e desenvolvida. É uma questão do evoluir da sociedade e da tradução desta evolução em novas formas de trabalho, de organização, de aprendizagem e de gestão e liderança. Trata-se sobretudo de co-criação. A figura de líder formal vai dar lugar a um processo de liderança. Desta forma, a liderança é fruto de um processo colectivo que resulta num nível mais elevado de resultados.

Este texto proporcionou a continuidade do espaço para falar sobre o que é desejado, sobre o sonho de uma melhor versão humana de liderança e sobre como o Ser Feminino pode trazer algo novo.

A uma dada altura alguém expressava na sala a sua angústia e dificuldade em acreditar que era possível mudar. Pediu desculpa pela visão, dizendo ‘talvez seja da idade’ , e partilha um pouco qual o rumo da vida que a levou a este sentir.

Senti profundamente as suas palavras, pois também, por vezes, a angústia bate-me à porta.

Depois uma das participantes apresenta o convite para prestarmos atenção à esfera da acção e responsabilidade individual, e como esta influencia a perpetuação ou transformação do estado das coisas.

Unindo a angústia expressada anteriormente e este tópico da acção individual segui o impulso de oferecer algo que sinto muitos de nós ainda desconhece – e os media não ajudam nada: Somos milhões em todo o mundo!

Existem imensas comunidades de diálogo, pensamento e acção partilhada, espalhadas por quase todos os cantos do mundo. Comunidades onde se podem apoiar. E estamos a crescer a cada dia, no mundo real e no mundo virtual!  Falei da comunidade internacional Art of Hosting (AoH), e das sementes plantadas, em 2016, para a criação da Comunidade AoH Portugal. Mencionei outras redes de conhecimento e prática e como todas partilham o conceito de abordagem integral. Milhões de indivíduos por todo o mundo, comprometidos com a integração de uma visão holística na criação de um futuro colectivo.  ( The Future of Management is Teal; Integral European Conference 2016)

Não precisa e não deve ser um caminho solitário – e isto tanto para pessoas como para grupos e instituições.

“Existe um rio que flui agora muito rápido.

É tão grande e rápido que há aqueles que terão medo.

Eles vão tentar segurar-se à margem.

Eles sentirão que estão sendo dilacerados e vão sofrer muito.

Reconhece que o rio tem o seu destino.

Os mais velhos dizem, ‘temos de deixar a margem, empurrar para o meio do rio, manter os olhos abertos, e as nossas cabeças acima da água’.

E eu digo, vê quem está lá contigo e celebra.

Neste momento da história, não devemos tomar nada como pessoal. Muito menos a nós mesmos.

Por enquanto o que fazemos, o nosso crescimento espiritual e a viagem chega a um impasse.

O tempo do lobo solitário acabou.

Reúnam-se!

Eliminem a palavra luta do vosso vocabulário e atitude.”

– A 11ª Hora – Profecia de um Ancião Hopi

E assim foi o meu 8 de Março, um dia de conversas feministas e femininas.

 

Trouxe a pulsar dentro de mim a percepção de uma abertura de espaço para integrar tudo aquilo que tem sido marginalizado. Todas as partes que o sistema patriarcal não quis aprender a lidar e preferiu suprir dos seus modelos: os aspectos intangíveis e menos visíveis da vida, o espaço e o tempo para nutrir e cuidar das relações humanas.

Grata!

 

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