6 nutrientes para equipas com coração forte – Equipas criativas e coesas.

O espaço de reflexão e o convite-desafio que apresento hoje é para que, enquanto na função-liderança de equipas, queiramos primeiro liderar-nos a nós mesmos e depois tenhamos a intenção de anfitriar pessoas.

Convido à mudança na estrutura de atenção e modo de participação da função líder, para que possamos co-criar equipas com um coração forte.

Chamo equipas com um coração forte aquelas que são capazes de manter-se coesas, enquanto se transformam, no meio das adversidades que, de tempos em tempos, visitam todos nós, em todos os cantos do mundo.
São aquelas equipas que oferecem suporte ao indivíduo e ao colectivo enquanto transformam obstáculos em oportunidades.

Equipas de coração forte são compostas por pessoas que se sentem valorizadas e consideram a posição dos outros, mesmo que face a posições antagónicas, dentro de um qualquer tema ou desafio que surja no seio do grupo.

Hoje o impulso de escrita provem muito do estar cheia de memórias vivas sobre a riqueza de desenhar processos de aprendizagem e colaboração, com a intenção de convocar presença humana e sua expressão autêntica.

Acolher a mente e o coração de cada participante para criar um grande campo de potencial criativo.

Regresso de uma acção de Formação na ‘Arte de Anfitriar Conversas Significativas que geram Impacto Positivo’ –  Art of Hosting (AoH). Profundamente grata pelo privilégio de integrar a equipa de facilitadores da Comunidade AoH São Paulo e pela qualidade de presença em que participei – membro da equipa que em 2016 organizou e co-facilitou a 1ª Formação internacional AoH em Portugal.

Com a sensação que este conhecimento não me pertence e que deve ser partilhado, proponho elencar uma combinação de elementos para facilitar a aprendizagem e promover colaboração, ancorados na intenção de convocar presença humana e a sua expressão autêntica.

1. A atitude inicial – Anfitriar e facilitar na qualidade de eterno aprendiz

Um dos fenómenos que mais me surpreende nestas formações é a velocidade com que conseguimos criar equipas robustas, onde se criam elos de e para a vida, num espaço de apenas 5 a 10 dias.

É incrível como sou sempre surpreendida pelo poder transformador de cada nova acção. Creio que é a descoberta que tal potencial de transformação é proporcional à abertura com que nos apresentamos ao grupo. É resultado do estar presente como a abertura de um(a) aprendiz.

Esta atitude de aprendiz cria uma tensão poderosa entre o que sabemos e o que quereremos saber.

Só o nome ‘tensão’ inibe muitos de nós.
Mas tenho para mim que este é um território, de excelência, para aprender a suster e trabalhar com a tensão que tende a nascer da diversidade e face à presença de diferenças. É um espaço de prática em estar atento e saber cuidar da tensão emocional, de modo a auxiliar a sua transformação em tensão criativa – energia/acção.

É normalmente no pico do processo dessa transformação que a maioria de nós humanos sucumbe à tentação do controlo e não alcança o novo, escondido por trás do caos criativo. Fazemo-lo por diferentes motivos, inclusive por ‘não ser considerado apropriado’.


“The cave you fear to enter holds holds the treasure you seek”
– Joseph Campbell


A cada novo regresso de uma acção venho sempre cheia de conhecimento novo, resultante deste movimento entre tensão emocional e tensão criativa. E cheia também de uma convicção sobre como o honrar da singularidade de cada pessoa faz toda diferença na construção de equipas criativas e coesas.

2. Criar Espaço de apreciação da singularidade de cada participante

Nesta jornada de anfitriã e facilitadora reforço, em cada nova acção realizada, a consciência do poder em prestar atenção ao etéreo e em cuidar da dimensão emocional.

O poder da apreciação está na capacidade de acelerar o processo de transformação de um grupo de pessoas em uma equipa activamente comprometida com o objectivo colectivo.

Acredito profundamente que é através da decisão individual de prestar atenção e cuidar que, nas comunidades que integro, conseguimos criar, em poucos dias, equipas fantásticas, entre pessoas que nunca se conheceram, deixando plantadas sementes de ligações para a vida.

A cada nova formação que realizo vejo tangibilizar-se o poder dos processos de aprendizagem facilitados ao longo deste tipo de jornada – o ciclo de aprendizagem que nos guia do eu para o nós. E como neste ciclo a função-facilitadora da apreciação da singularidade revela-se imprescindível ao desenho de processos de co-criação, assentes no diálogo e na acção participativa.

Dar espaço a essa apreciação do singular requer de nós, anfitriões, a aceitação do convite a trabalhar com atenção ao nosso espaço interior,  e não somente cuidar do espaço e dinâmicas exteriores.

MA – Espaço Entre

Somos convidados a procurar um estado de ‘MA’ – símbolo japonês que remete para um vazio/espaço entre duas coisas. Uma expressão que fui interiorizando com a prática de aplicação de metodologias fenomenológicas e que constitui hoje o que gosto de referir como um ‘processo de esvaziarmos-nos no Eu para podermos dar espaço ao fenómeno Nós’.

O desafio de anfitriar está mesmo, no meu sentir, neste processo de criar espaço e deixar emergir uma estrutura interior que acolhe.
Estar disposta (o) a ver e escutar verdadeiramente o outro.

Este movimento de estar disposta(o) é quase sempre precedido da presença de alguns ‘inimigos interiores’. Pelo menos na minha experiência e, pelo que sei, de acordo com milhares de outros praticantes.

Não interessa o número de acções que já tenha realizado, ao início sou quase sempre visitada por uma ou mais vozes –  a voz do julgamento, a do cinismo ou a do medo (inimigos interiores da Jornada U).
Estas vozes do pensamento, umas vezes mais silenciosas outras mais agitadas, contorno-as através da aceitação e compaixão. Estados que acedo com a ajuda de práticas de atenção e respiração que desanuviam a mente e criam espaço interior.

Neste movimento de prestar atenção ao nosso interior redireccionamos o foco para o indivíduo no colectivo  – como oferecer suporte para que cada participante assuma a liderança da sua jornada de aprendizagem,a responsabilidade individual de liderar a sua participação.

E enquanto alguém que vos trás um convite a experimentar novas formas de liderança partilho convosco que considero que a qualidade do espaço interior de um anfitrião é determinante no modo como organizamos e conduzimos os processos do grupo de modo a alcançar resultados colectivos com significado pessoal.

3. O poder do Círculo

Apresentado o desafio da atitude inicial e o cuidado sobre o Espaço junto agora um novo elemento poderoso na criação de sentido de pertença dentro de um colectivo.

A todos aqueles que queiram auxiliar a criação de equipas de coração forte sugiro testar o poder do círculo.

O círculo é o formato de organização que ajuda a criar um espaço seguro para processos de ideação e co-criação transformativos.
A disposição dos lugares em círculo trás a simbologia de uma forma inerente ao movimento natural da vida. Faz milhares de anos que o Círculo nos acompanha como estrutura e movimento de organização e evolução.

O Círculo ou roda é uma forma antiga de encontro que ajuda as pessoas a reunirem-se em conversas de um modo que chama o seu potencial para o diálogo e expande a base de sabedoria do grupo. O círculo oferece proximidade e ajuda à percepção de segurança.

A maior ou menor percepção-sentimento de segurança que cada participante alcança influencia a sua capacidade de silenciar ou não a suas vozes interiores – julgamento, cinismo ou medo – que tendem a emergir quando nos sentimos expostos.

É a confiança na possibilidade de expressar-se livremente que traz o impulso para que cada uma das pessoas presentes revele o que de mais profundo e significativo existe dentro de si.


“Freedom is the real source of human happiness and creativity.”

– Dalai Lama


Recordo como em resultado dos meus movimentos de abertura e exposição, na vulnerabilidade em apresentar-me como aprendiz, recebo, a cada nova acção, novos insights, modos de fazer, ferramentas, ideias de projectos, sugestões de livros e filmes, parceiros e um imenso espaço de reflexão e auto-desenvolvimento.

Equipas de coração forte tem melhores condições de aceder ao poder criativo da vulnerabilidade e são orientadas por anfitriões de modo a valorizar o potencial criativo de cada um, ao serviço de um propósito comum.

As equipas com coração forte são equipas a quem é dado espaço e tempo para divergir e o apoio para a posterior fase de auto-organização.


” Vulnerabilidade não é fraqueza.
E este mito é profundamente perigoso.
A Vulnerabilidade é o local de nascimento da inovação,
criatividade e mudança.”

Brene Brown


Esse movimento de auto-organização passa, muitas vezes, por fases caóticas, em que as coisas parecem desmoronar-se e somente equipas de coração forte, onde a singularidade é apreciada, aceitam observar e abordar os fenómenos de tensão, que emergem naturalmente na presença de diferença.

Enquanto anfitriões, ao convidar a singularidade estamos a criar espaço para a manifestação potencial de tudo aquilo que habita dentro de cada pessoa. E este movimento de abertura trás diversidade e revela o que diverge dentro do grupo. Convoca intenções com significado profundo, a beleza de sonhos e visões pessoais.
É uma Chamada às milhares de lentes com que podemos observar, sentir e agir no mundo. E estas por vezes colidem, tocam-se e geram impacto no indivíduo e/ou no grupo.

4. Suster espaço para a tensão

Neste universo diverso e ao longo do percurso de aprendizagem encontramos teses, sínteses e anti-teses, em nós, nos outros e comuns.

É para mim difícil acreditar na hipótese de realizar acção verdadeiramente criativa, sem, depois da bliss da possibilidade de expressão, termos de caminhar rumo à famosa e muitas vezes desconfortável passagem pelo ‘buraco da agulha’ – o momento em que para avançarmos somos confrontados com necessidade de algo ficar para trás. Esvaziarmos de noções de certeza e inteireza para dar espaço a algo novo!

A passagem pelo ‘buraco da agulha’ é o caminho que nos leva para novas aprendizagens, mas antes pede que nos livremos de algo que até aquele momento, talvez, consideremos parte inalienável.

Entramos num imenso território de incerteza, a fase de emergência das partes e posterior movimento de aglutinação ou coalescência.

A qualidade de presença com que estamos presentes nesta zona de maior caos e a atitude com que facilitamos o movimento entre as partes torna-se neste momento um elemento-chave, para que o grupo possa avançar e retornar a um sentido de comunidade.

Esta capacidade de trabalhar tensão remete-me para aquilo que considero estar na essência ou alma da facilitação de todo um novo conjunto de novas tecnologias colaborativas que, aproximadamente há 20 anos, várias comunidades de aprendizagem no mundo começaram a experimentar e modelar: a decisão de colocar a bondade básica no centro das actividades de ideação, planeamento e decisão de acção.
É esta escolha que une as diferentes comunidades a que pertenço, e as suas abordagens e modelos, a decisão de retornar à nossa humanidade e agir no mundo a partir deste ponto inicial.

5. Bondade Básica

No final o que todos queremos é ser felizes! E isto de ser feliz tem muito a ver em sentir-se apreciado.
E quando estamos felizes estamos relaxados, sentimos-nos mais seguros, mais abertos e dispostos a participar.

Vista assim, a bondade básica, enquanto apreciação, oferece-nos um caminho para descobrir qual a melhor atitude a adoptar na decisão de prestar atenção. Fazemo-lo fechados no nosso saber ou estamos dispostos a abrir e a querer saber?

Se a escolha é estar disposta(o) a iniciar com uma atitude de não saber o passo seguinte será desenvolver a capacidade de escuta e diálogo profundo, de modo a sermos capazes de manter a abertura necessária para a emergência do novo.

Chegamos ao sexto e último elemento que trago neste convite-desafio para facilitar a criação de equipas com o coração forte:

1- A atitude inicial de aprendiz; 2- a criação de espaço seguro (exterior e interior); 3- o adoptar formatos de encontro que privilegiam o circulo; 4- o praticar suster tensão; 5- o reconectar com a bondade básica humana e, agora, 6- a prática de escuta e diálogo.
São estes os nutrientes que considero essenciais a uma equipa de coração forte.

6. Escuta e Diálogo Profundo

Sobre a escuta e diálogo convido a explorar o movimento entre os 4 níveis apresentados na teoria e jornada U (veja o vídeo), que nos convidam a sair de um modo distante de escutar e dialogar para um plano empático ou ainda melhor, um plano generativo. Aqui encontramos um modo de estar presente muito diferente daquele a que estamos habituados a praticar e à semelhança dos outros elementos também esta capacidade está ao alcance de todos, através recursos pessoais que decidimos utilizar: mente aberta, coração aberto e intenção aberta.

As possibilidades de criar equipas fortes residem dentro de cada um de nós e depende da decisão individual em mergulhar na nossa mais profunda humanidade.

Muitos projectos inovadores tem nascido a partir desta atenção e cuidado com a nossa humanidade. São projectos que procuram gerar impacto positivo e que vejo multiplicarem-se pelo mundo todo, todos os dias. Só dentro da comunidade internacional AoH atrevo-me a extrapolar que uns milhares de projectos são plantados, regados ou colhidos, a cada mês que passa.

No meu post anterior celebrei um destes projectos – um modelo de economia partilhada que coloca no coração do negócio princípios de bondade básica.

Concluo esta partilha explicitando a minha intenção de partilha:  inspirar e provocar o impulso de experimentar estas novas formas de criar resultados colectivos, na esperança que assim possam nascer mais projectos e negócios alinhados com a nossa humanidade, capazes de criar resultados colectivos que todos celebrem.

Combinar estes e outros elementos é uma arte em que qualquer um de nós pode decidir tornar-se aprendiz. Ao longo da jornada cada um encontra e decide adoptar o seu conjunto de práticas pessoais – de atenção e respiração. Nesta arte não existe nível final de maestria a alcançar, existe sim o pedido de compromisso em mantermos-nos ligados ao coração e requer uma boa dose de disciplina pessoal.


“O objectivo da arte não é representar a aparência exterior das coisas, mas o seu significado interior.”
– Aristóteles


 


Njiza Rodrigo da Costa, fundadora da ICOGN, anfitriã e facilitadora de liderança autêntica, diálogo e acção participativa, Coach certificada pela ICC – International Coaching Community, aprendiz e praticante da Comunidade Internacional Art of Hosting, co-iniciadora da Comunidade AoH Portugal, praticante da jornada U, facilitadora certificada da metodologia fenomenológica ‘Gestão Sistémica através das Constelações Organizacionais’, certificada pela Design Thinkers Academy em Service Design Thinking e praticante de várias metodologias colaborativas (Círculo, World Café, Open Space Technology, Dragon Dreaming Project Design).  

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